sábado, 18 de abril de 2009

Revolução já!

No dia 3 de abril escrevi um pouco sobre as questões administrativas do Clube de Regatas do Flamengo. Entre algumas palavras, citei o ex-jogador Leonardo Nascimento de Araújo, o Léo, como um exemplo de administrador no mundo da bola. E nesta sexta-feira, 17, os motivos apareceram.
Leonardo participou do programa Redação SporTV e mostrou porque ocupa a direção da Fundação Milan – que gere o clube italiano de futebol, de mesmo nome, no qual jogam Kaká, Ronaldinho Gaúcho e Alexandre Pato – e porque é tão respeitado na Itália. O dirigente foi convidado a participar do programa para discutir suas recentes declarações que preencheram manchetes em todo o país. “Abre o clube. Vende o Flamengo”, disse. Óbvio que não passaria batido.
Na verdade, as idéias do Leonardo estão (muito) à frente do que é o futebol brasileiro atualmente. Os projetos de um modelo de gestão profissional, busca de investimentos concretos e um grande planejamento de longo prazo para o clube contrastam com a realidade – não só do Flamengo, mas de todos os clubes – de gestões amadoras, que foram novidades em décadas passadas e que já não servem.
“Quem está bem, tem pouca dívida. Quem está mal, está completamente mergulhado em uma crise sem fim e sem alternativa”. Resultado do amadorismo, que gera inadimplência, que faz com que os grandes projetos de um clube sejam ganhar o campeonato estadual e brigar pelo título brasileiro. Que fizeram com que o Corinthians, após receber milhões da MSI e ser campeão brasileiro em 2005, mergulhasse em uma crise e fosse parar na série B, por exemplo.
É indiscutível que o futebol brasileiro não tem mais força. Os clubes não têm potência para competir com as grandes equipes européias nem para segurar um jogador por um ano sob contrato.
Focando mais no Flamengo, que é o objeto das análises do Léo, o cenário que podemos perceber é espantoso. Como alguns devem se lembrar, há alguns anos o governo federal criou políticas para sanar todas as dívidas que os clubes brasileiros tinham. Cenário atual: Flamengo fica um ano sem pagar, perde o parcelamento e tem dívidas maiores do que as de anos atrás. E a inadimplência segue. Lembrando: esta é a realidade da maioria dos clubes.
Todo o sistema do futebol brasileiro é ineficiente. A única forma de investimentos é por meio de contratos de publicidade. Dentro destes contratos, dirigentes precisam correr atrás de adiantamentos para poder pagar o salário de seus jogadores.
A inadimplência continua sendo prática comum porque os dirigentes sabem que isso não lhes causará problema nenhum. No máximo, vai causar ao próximo presidente, ou a qualquer um dos que vierem após este.

Modelos que deram certo

A Europa tem dois exemplos de modelos de gestão que dão certo. No primeiro, os clubes têm donos. Empresas que podem investir seu capital para que o time se desenvolva, sem visar apenas uma gestão. Este modelo, o tão falado “modelo profissional”, é o mais eficiente em minha opinião. É a administração aplicada de forma séria e responsável, sem amadorismo, sem a velha história de “passar o pepino para o próximo que vier”.
O outro modelo é praticado na Espanha, e depende um pouco mais da ação do governo. Há cerca de dez anos, vários clubes espanhóis estavam quebrados, afundando em um mar de dívidas de impostos. Ao invés de adotar uma posição permissiva, o governo deu um ultimato para que os times sanassem as dívidas e organizassem sua gestão para que prosperassem e obtivessem sucesso.
Como conseqüência, uma série de medidas políticas foram criadas para auxiliar estes clubes. Para vocês terem uma idéia, o sucesso de Real Madrid e Barcelona é fruto desta parceria com o estado. Lá, os impostos sobre atletas estrangeiros são reduzidos para algo em torno de 25%, enquanto em outros países do Velho Continente os mesmos jogadores custariam 50% de impostos. Isso facilita muito para que equipes espanholas tenham vantagem competitiva em contratações de alto valor.
Além disso, um exemplo mais concreto. Há poucos anos, a prefeitura de Madrid comprou o centro de treinamento do Real Madrid por mais de 300 milhões de euros, mas ainda permite que o clube utilize o centro de graça durante algumas décadas. Esta grande entrada de capital financiou os “galácticos”.

No Brasil, este segundo modelo não deve acontecer, já que não existe interesse do governo neste sentido. Nos resta então o modelo de gestão privada, que considero muito mais seguro e vantajoso. Acredito que os clubes devem ser geridos de dentro para fora, sem dependência de medidas políticas.

Porém, as idéias de Leonardo não foram tão bem recebidas como se esperava. Muitos dirigentes e membros dos “conselhos” que gerem os clubes, principalmente aqueles ditos “tradicionalistas”, se mostraram contrários ao modelo proposto pelo ex-atleta. E é isto que deixa os clubes amarrados a um sistema que não dá mais frutos. Um sistema que está morto.
Um ex-presidente do Rubro-negro carioca teve a coragem de bater de frente com as idéias do Léo, afirmando que o clube fez uma revolução de gestão em 1976. O que eu, como torcedor, devo fazer primeiro lendo uma declaração deste tipo: rir ou chorar?

É de suma importância que os clubes tenham um dono que controle os investimentos e realmente Administre os times como empresas. Não administre da forma que é feito hoje. Fugir desta idéia é ir na contra-mão do mercado, ser engolido por ele.
Fico feliz que esta discussão tenha tido início, e espero que tenha um final feliz. Considero importantíssimo este salto para o futebol brasileiro, pois falamos aqui de cultura, de paixão nacional. E a maior paixão do povo brasileiro não merece ser largada ao relento.

Links sobre o assunto:
Emerson Gonçalves, no Olhar Crônico Esportivo;
Décio Lopes, no Expresso da Bola;
Lédio Carmona, em seu blog pessoal;
Os três comentaram a entrevista de Leonardo e falaram um pouco sobre seus posicionamentos a respeito. Vale a pena ler.
E por último, mas não menos importante, um link com vários vídeos da participação do Léo no Redação SporTV.

1 comentários:

Fabiano Morisco Jacinto ("Chiclete") disse...

Agora dá pra compreender o que o Leonardo quis dizer.

Realmente, em quaisquer segmentos da sociedade, deve haver organização como forma de otimizar tanto as relações interprofissionais, quanto as relações humanas!

Ótimo artigo!!!

Forte e fraterno abraço!!!